
Era como um tiro disparado no escuro. A verdade, quando dita sem provas, pode se transformar em um revólver apontado contra o próprio rosto. O jornalismo, como a lei, não perdoa erros – e eu aprendi isso da pior maneira possível.
Entre as falsas acusações de Crisnandes, um pedido de prisão contra mim pelo MP por suposto falso testemunho no caso dos professores e um nome que já me condenava – Topa Tudo – minha credibilidade estava pendurada por um fio. Mas nada, absolutamente nada, teria me colocado mais contra a parede do que uma maldita gravação feita às escusas por Ubaldino Pinto.
A ânsia de desvendar a verdade é um veneno que, se tomado às pressas, pode matar. Naquela época, eu não via armadilhas - e elas existiam, e muitas, conforme o leitor poderá observar sobre algumas situações que envolvem a minha participação neste caso - eu só via apenas pistas que pareciam incontestáveis. Mas um jornalista precisa mais do que mera convicção; precisa de provas. E, naquele dia, minha boca foi minha pior inimiga.
Erro quase que fatal
Foi numa conversa reservada, em minha própria residência, que cometi o erro quase que fatal. Sem medir palavras, e contaminado pela direção que as investigações pareciam tomar, afirmei categoricamente a Ubaldino que Abade seria o mandante dos crimes. Um veneno que me deram e que, ingenuamente, engoli. O próprio MP e as denúncias que chegaram até mim – forjadas nos bastidores da oposição – me levaram a crer que Abade poderia ser o grande culpado pelas mortes de Álvaro e Elisney. Pior : quase me tornei peça de um jogo muito maior. E evidentemente muito mais sujo.
Mas Ubaldino não era qualquer jogador e aguardou o momento de dar o troco. Isso porque, no passado, quando tive a oportunidade, gravei e desmascarei o ex-prefeito e Roberta Caires em 2003 ao receber das mãos dela 20 mil reais, de um total de 200 mil prometidos por Ubaldino, ambos tentando calar o Jornal Topa Tudo sobre os escândalos da administração até então mais corrupta da história de Porto Seguro, hoje já ultrapassada por alguns dos seus sucessores. O dinheiro foi parar no Ministério Público, sendo por mim posteriormente doado à APAE, ajudando a colocar praticamente um fim na carreira política do ex-prefeito.
No caso dos professores, a partir da minha reverberação de uma possível participação de Abade, feita bem antes, ele esperou o momento certo. Astuta e maquiavelicamente, esperou quase dois anos. E quando a grande chance apareceu, devolveu o golpe. Ele havia gravado nossa conversa e, no momento em que minha prisão por falso testemunho parecia iminente, jogou a bomba. A gravação foi ao ar em sua rádio. A cópia chegou ao MP. Apesar do duro golpe sofrido, admito que o jogo estava empatado.
No entanto, eu o gravei por convicção em relação ao meu trabalho como jornalista e ele me gravou por maldade e desejo de vingança. A grande diferença foi essa.
Reviravolta
Mas, nos acréscimos desse jogo sujo eu virei o placar. Ou seja, bati o escanteio e ainda corri para a área cabecear e fazer o gol da minha salvação e assim consegui provar ao promotor Dioneles que minhas palavras não passavam de um grande equívoco, fruto de informações manipuladas.
A tal gravação nunca avançou no MP. Nem poderia. Eu as havia encaminhado, repito, ao próprio promotor, ao juiz e ao delegado da Polícia Federal, Fernando Perez e tinha prova disso. Vários anos depois, após muitas batalhas, consegui que a gravação clandestina fosse removida do YouTube por decisão judicial. O troco de Ubaldino na verdade se revelou um tiro de festim. Muita raiva, noites sem sono, mas, no final, nada além disso.
Mas, como tenho o hábito e a humildade de procurar extrair aquilo que é bom de todas as situações que enfrento, por pior que elas me pareçam, este triste episódio só fez renovar minhas forças para continuar seguindo em frente. Aprendi, talvez até um pouco tarde, que, na vida, se queremos realmente vencer, precisamos extrair o bom daquilo que muitas vezes nos parece ruim. Mas, a princípio, realmente foi mal, me dei mal, muito mal. Ele e Gabiru fizeram a festa com meu nome e com a gravação. Eu espumava de raiva de ambos. E a vergonha de encarar a Abade e lhe pedir desculpas, a quem tanto eu defendia a inocência?
Como diz o próprio Ubaldino, no fundo, no fundo, eu não passo de um tabaréu, um legítimo Zé Ninguém, capiau da roça que ainda acredita nas pessoas. Sim, eu ainda acredito nas pessoas, principalmente quando se dizem minhas “amigas”, postura que preciso vigiar e rever constantemente para não cair mais em armadilhas. Já não sou mais tão abestalhado. Ou pelo menos me esforço e vigio para não ser e, se hoje faço estes relatos de episódios e desventuras pessoais é tão somente, repito, para que o leitor observe como estes fatos se relacionam entre si no caso dos professores.
Pazes com Ubaldino
O destino tem formas peculiares de agir. Deus, aquele a quem tanto confio e procuro obedecer, colocou Ubaldino e eu, anos depois, na mesma sala de aula da Unisulbahia, no curso de Direito. Ironia ou providência? Logo eu que deseja lhe aplicar uma boa e merecida surra com uma vara de biriba comprada especialmente em sua intenção. Mas cadê a coragem para aplicar a tal surra? Fiquei só na raiva mesmo.
O episódio aconteceu no estacionamento da Unisulbahia onde estacionei o carro à beira da pista, fiz uma oração e combinei com Deus, mais ou menos assim: “Senhor, eu não quero e não vou perdoar aquele filho da p#t@ do Ubaldino jamais. Posso até não bater, mas perdoar nunca, jamais. Agora, se é o Senhor mesmo quem está falando comigo, vou fazer o seguinte: se eu chegar na faculdade e encontrar ele por lá, e ele estiver sozinho no estacionamento, vou lhe procurar para tentar conversar e talvez tentar perdoá-lo”.
Mas não deu outra. Quando chego na faculdade, por volta das 14:30h, quem estava lá, sozinho, no estacionamento? Justamente ele, o meu arquirrival e inimigo público nº 1, Ubaldino Júnior. Inacreditável. Não podia ser verdade. Ele nunca chegava naquele horário.
Foi aí que me aproximei lentamente, completamente e inseguro - não sabia qual seria a reação dele - o ex-prefeito estava com o vidro do seu carro fechado e com ar condicionado ligado, e acredito que até mesmo um pouco temeroso também, ele baixou o vidro.
E eu falei: - “É o seguinte, Ubaldino. Aconteceu um fato agora na estrada que você certamente não vai entender e nem acreditar. Mas Deus me mandou lhe pedir desculpas, caso lhe encontrasse sozinho aqui no estacionamento, eu confesso que realmente não queria, mas sou obrigado a pedir. Eu não quero mais ter razão, prefiro ser feliz e viver em paz. Me perdoe se algum dia lhe desejei mal ou lhe prejudiquei. Vamos encerrar esta nossa briga de uma vez por todas?” – mais ou menos neste termos argumentei com o ex-prefeito.
- “Sem problemas, Miro, por mim você está perdoado, vamos parar com essa briga, também acho que já passou da hora. Minha maior vingança será um dia você votar em mim” respondeu, rindo, Ubaldino, safo, macaco velho na política e inteligente como ele só. Brigar, seja com quem for, nunca é bom.
A verdade é que é difícil e não tem jeito de brigar com Ubaldino. Ele realmente possui uma inteligência e carisma inigualáveis, bem acima da média, fora da curva. Só não pretendo votar nele, ainda mais depois que ele resolveu fazer dobradinha com o prefeito Jânio Natal.
Hoje eu e Ubaldino, por obra de Deus, nos damos relativamente bem. O passado acredito que ficou para trás. A decisão de procurá-lo e encerrar com nossas desavenças foi totalmente minha.
Como dito, a partir de então, pusemos fim definitivamente às nossas desavenças. Não nos tornamos amigos, mas também não restaram inimigos.
Política? Ah, essa tem seus próprios demônios. Politicamente, minha paixão declarada – e a última, eu prometo e juro de pés juntos - é pela ex-prefeita Cláudia Oliveira, conforme não me canso de afirmar aos meus amigos. Política igual à ela, que trabalhe tanto e que seja tão séria e de palavra, sinceramente, ainda não conheci.

A atual deputada e ex-prefeita Cláudia Oliveira, a quem tive a honra de assessorar juridicamente por 2 anos, tem sido motivo de orgulho para seus eleitores, sempre trabalhando incansavelmente pelo desenvolvimento de Porto Seguro e região.
Na minha modesta opinião, não existe nome melhor no cenário político de Porto Seguro do que a atual deputada e ex-prefeita. Cláudia é uma mulher realmente diferenciada, decente e trabalhadora. Ou pelo menos tem sido assim até aqui. Se ainda há alguém que conheço na política e que merece confiança, é ela. Outra Cláudia, se existir, eu realmente não conheço.